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Relicário

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Nasceu num olhar, brotou de um sorriso

Esse amor que a minha alegria entristece

Viveu num segredo, morreu de indeciso

Pra detê-lo não houve conversa nem prece

 

Inútil tateio num caminho impreciso

E por razões que a própria razão desconhece

É um mistério, talvez, desvendá-lo preciso

N’alma ficou, coração não esquece

 

Este amor irreal, relicário que debalde idealizo

É castigo, e o que mais dói, machuca e fere…

Ontem fui colo, leito, abrigo, hoje, nem me conhece

 

Hospedeiro letal, cruel assassino, mata o peito onde cresce

É o legado do amor não correspondido, veneno amargo, sinistro,

Pois, quando não mata, enlouquece!

 

Lu Marinho

 
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Publicado por em 16 de dezembro de 2013 em #DESTAQUE, ↑ REFLEXÃO ↓, ♥ POESIAS ♥

 

Coração

 

porque-e-tao-dificil-me-amar1

Perverso coração que não me escuta

Dia a dia faz pesada a minha luta

Insistindo em mudar o que não muda.

 

Insensato coração teimoso

Já cansado de voar sem achar pouso,

Ouça um antigo provérbio que aprendi em casa:

Formiga quando quer se perder cria asas…

E você já não conhece mais o chão!

 

Lu Marinho

 
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Publicado por em 18 de novembro de 2013 em #DESTAQUE, ↑ REFLEXÃO ↓, ♥ POESIAS ♥

 

Aprendiz

Debruçada sobre a noite

olhando as plaícies desertas

percebo que na vida

toda certeza é incerta…

 

Não vivo mais de esperanças

não aceito mais promessas

da vida não levo nada,

ela, a vida é quem me leva…

 

Saudade do que não vivi

é quase a minha rotina

do que fiz e me arrependi

dou ao destino por sina…

 

Se o mundo é professor,

a vida uma cartilha,

sou apenas aprendiz

da universidade divina.

 

Por Lu Marinho

 

 

 

Cafuné Divino…

 

Cafuné de Divino…

Nos olhos do amanhecer eu vi a vida brotar

vi os botões florescer, os pássaros a gorjear

O vento sábio espalhar o pólen das flores no ar

e sobre o campo o orvalho como cristais cintilar…

 

O sol e os girassóis dançando em perfeita harmonia

o desabrochar das flores enche os campos de alegria

pássaros, grilos, cigarras numa esplendida sinfonia

alimentam nossa alma, tornando mas bela a vida…

 

Os galhos do flamboyant repletos de flores vermelhas,

Compõe o mais belo quadro da nossa mãe natureza…

abismado eu me vi diante de tanta beleza….

 

Diante deste cenário perfeito, indescritível

só posso crer que existe um ser supremo e invisível

Deus! Que muito, muito me ama e tanto se importa comigo!!!

 

Por Lu Marinho

 

A lição do fogo.

A lição do fogo.

Um membro de determinado grupo, ao qual prestava serviços regularmente, deixou de participar de suas atividades, sem nenhum aviso.
Após algumas semanas, o líder do grupo decidiu visitá-lo.
Era uma noite muito fria. O líder encontrou o homem em casa sozinho, sentado diante da lareira, onde ardia um fogo brilhante e acolhedor. Adivinhando a razão da visita, o homem deu as boas-vindas ao líder, conduziu-o a uma grande cadeira perto da lareira e ficou quieto, esperando.

O líder acomodou-se confortavelmente no local indicado, mas não disse nada. No silêncio que se formara, apenas contemplava a dança das chamas em torno das achas de lenha, que ardiam. Ao cabo de alguns minutos, o líder examinou as brasas que se formavam e cuidadosamente selecionou uma delas, a mais incandescente de todas, e empurrou-a para o lado.

Voltou então a sentar-se, permanecendo silencioso e imóvel. O anfitrião prestava atenção a tudo, fascinado e quieto. Aos poucos a chama da brasa solitária diminuiu, até que houve um brilho momentâneo e seu fogo apagou-se de vez.Em pouco tempo o que antes era uma festa de calor e luz, agora não passava de um negro, frio e morto pedaço de carvão recoberto de uma espessa camada de fuligem acinzentada.Nenhuma palavra havia sido dita desde o protocolar cumprimento inicial entre os dois.

O líder, antes de se preparar para sair, manipulou novamente o carvão frio e inútil, colocando-o de volta no meio do fogo. Quase que imediatamente ele tornou a incandescer, alimentado pela luz e calor das brasas ardentes em torno dele.
Quando o líder alcançou a porta para partir, o anfitrião disse:
– Obrigado por sua visita e pelo belíssimo ensinamento. Estarei voltando às minhas atividades amanhã. Deus o abençoe !
E seu pedaço de carvão está como???…

Texto extraído do livro As mais belas parábolas de todos os tempos Vol III

De Alexandre Rangel.

 

Eu sei, mas não devia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eu sei, mas não devia


Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Marina Colasanti

O texto acima foi extraído do livro “Eu sei, mas não devia”, Editora Rocco – Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.